“Destino” é uma palavra que me incomoda. Não no sentido literal, que se refere ao ponto final de uma jornada, ou à utilidade de algo ou alguém, mas no sentido que a maioria das culturas usa a palavra pra injetar significado nas nossas vidas.

Volta e meia você vai ler ou ouvir por aí que certas pessoas são destinadas a isso ou aquilo, ou então um pastor vai te dizer que “Deus tem um plano pra você”. Em certo ponto, confrontado com a noção de que minha vida pode acabar a qualquer momento por causa de uma fatalidade, era confortante repetir pra mim mesmo que isso não vai acontecer, porque meu tempo aqui tem que ter algum propósito e tem algum papel que estou aqui pra cobrir.

A real, galerinha, é que isso é uma tremenda besteira. Me parece apropriado falar disso hoje, quando todo mundo está de olho nas merdas que aconteceram no Haiti.

Pense nisso: quantas vidas foram destruídas em questão de horas? Quantas ambições, laços afetivos, quanta esperança desapareceu ali, junto daquelas vidas? Qual era o destino delas nesse mundo? Morrer em um terremoto?

Se você está lendo esse texto em uma cadeira confortável, em um ambiente relativamente seguro, isso não passa de sorte. Você faz parte uma parcela privilegiada da população do mundo, pelo menos por enquanto. Não se esqueça que a grande maioria das pessoas que morreram no 11 de Setembro eram bem-sucedidas e trabalhavam num dos lugares mais importantes da civilização ocidental que nós tanto adoramos.

Não existe destino. Não existe um plano secreto divino por trás das nossas vidas. Nós somos parte da natureza, e não há avanço tecnológico ou social que mude isso. E a despeito de toda sua beleza e majestade, a natureza continua sendo implacável e imparcial. Esteja no lugar errado na hora errada, e você vai se foder.

A vida é injusta. E não digo isso num tom ressentido, e sim prático. Algumas pessoas morrem de maneira estúpida e outras vivem vidas longas e cheias de experiências.

Você pode fazer o seu melhor e evitar correr riscos desnecessários, e pode aproveitar o seu tempo aqui da maneira mais construtiva possível. Logicamente, isso aumenta as suas chances de ser mais feliz e de afetar os outros ao seu redor positivamente.

Só por favor, não confunda isso com destino. Independente do seu valor pro mundo, essa empreitada pode acabar de maneira súbita. E é triste e até desanimador, mas é como acontece, e encarar os fatos e continuar vivendo a vida de cabeça erguida a despeito disso é uma das (poucas) qualidades da raça humana. Não sou contra a perseverança, apenas contra a ilusão de que somos todos protagonistas de um roteiro com final feliz e estrutura dramática.

O seu destino é morrer. Mas até que isso aconteça, espero que você viva sabiamente e tenha muita sorte.

Esse texto é pra você, que a cada dia loga no Twitter e percebe que seu número de followers diminuiu mais um pouco. Se você está se perguntando o que fez de errado, ou achando que eu sou apenas antipático, as respostas estão aqui.

Meu amigo(a), esses são os 5 principais motivos pelos quais a idéia de seguir o seu Twitter me causa calafrios:

1) você posta o dia inteiro

É um bocado irritante fazer login no Twitter e dar de cara com o mesmo nome repetido 80 vezes, pontilhado aqui e ali por tweets de outras pessoas.

Desculpe se isso mexe com o seu ego, mas eu não entrei no twitter só pra ler o que você escreve. Sendo assim, quando minha timeline se transforma em algo parecido com a sua página pessoal, tem algo errado.

A coisa fica desesperadora quando o excesso de tweets é combinado com o próximo item da lista:

2) você não diz nada interessante

Eu sei que ninguém tem uma vida excitante o tempo inteiro. Também sei que o princípio por trás do uso do Twitter é responder a uma pergunta em especial: “o que você está fazendo?”

Você, meu caro(a), leva isso ao pé da letra. Ninguém precisa de um log detalhado contendo toda e qualquer atividade mundana e desinteressante do seu dia-a-dia. Não me importa se você estava no trabalho e agora está de volta em casa, suas mensagens infelizmente chegam até mim tanto de lá quanto daí. Tá indo almoçar? Não diga. Ah, voltou do almoço? O suspense tava me matando. Agora me fala o que você comeu, com certeza não foi nada que valha um comentário (“prato X do restaurante Y é sensacional, recomendo”). Não, o que se segue é um tweet na linha “UIA coxinha com bolovo e coca zero nham”.

Outra coisa: postar repetidamente sobre suas saídas de fim-de-semana, seja pra recrutar gente via Twitter (ah, tome vergonha na cara), seja pra anunciar onde vai, seja pra dizer o quão maravilhoso foi seu fim-de-semana, é chato pra cacete. Okay, já entendi, você tem uma vida social. Você é descolado e eu adoraria ser como você, a despeito de que na real, não existe ninguém que seja ao mesmo tempo cool e indiscreto.

Aliás, também não dou a mínima se seus amigos estão no Twitter. Parabéns, os meus também estão. Então, dá licença se eu não quero saber se “o treino de judô com a @Edinanci e a @princesa_judoka foi MARA agora vou pro ensaio da bateria da @GRESValeSambaJBA que o @Jamelao MANDA MTOOOO BEM bjokas”. Foda-se.

É muito simples. Antes de bater com a testa no teclado 2 ou 3 vezes e clicar em “update”, faça pra você mesmo(a) a seguinte pergunta: esse tweet tem algum potencial que seja pra adicionar algo na vida de alguém? 2 segundos de entretenimento que seja? É uma tentativa honesta, pelo menos, ao invés de um tweet narcisista?

Se a resposta for “não” ou “não sei”, então por favor, não clique no botão.

3) você inunda minha timeline com replies

Imagine o seguinte: você está numa mesa de bar com várias outras pessoas. Numa situação social dessas, enquanto fala, às vezes você se dirige à mesa toda, e às vezes desvia sua atenção da geral pra conversar apenas com uma ou outra pessoa.

Quando se dirige à mesa toda, as pessoas que estão te ouvindo esperem que você diga alguma coisa de interesse geral. Se o que você tem pra dizer é “Dayane, a gente precisa marcar de fazer as unhas! Quinta agora você pode?”, é de bom tom chamar a Dayane de canto pra conversar, ao invés de chamar a atenção de um grupo todo pra se comunicar com apenas uma pessoa.

O Twitter é a maior e mais flexível mesa de bar do mundo, digamos assim. E veja só, nela todo mundo pode falar ao mesmo tempo e ainda ser ouvido. Só que onde as leis da física não se aplicam, as da boa educação ainda deveriam ser respeitadas.

A função reply é ótima pra responder/comentar um tweet, e ainda tem o bônus de só aparecer pra quem também segue o destinatário. Pra assuntos pessoais, existem as direct messages. Já tentou usar? Não é difícil.

“AH MAS NAUM DAH P MANDAR DIRECTS MESSAGE P KEM N ME SEGUE”, você diz. Já ouviu falar de e-mail e IM? Pois é, de alguma maneira, as pessoas conversavam antes do Twitter existir. Caralho, as pessoas conversavam até antes da própria internet existir! Dá pra imaginar?

4) você flooda constantemente

Tenha certeza disso: quanto mais fácil/simples é o uso de uma ferramenta de comunicação, maior é a proporção de pessoas que usam de maneira inapropriada.

No MSN, você tem mais ou menos 400 caracteres pra escrever uma mensagem.

No entanto

A maioria do pessoal

Fala com você

Assim

Em várias mensagens

Até que o som de “mensagem nova”

Se torna

Insuportável

(É mais ou menos assim, só que com mais erros de português e emoticons intrusivos que tornam as mensagens ilegíveis)

Já no twitter, onde o limite é 140, subitamente todo mundo precisa escrever mensagens longas. Vai entender.

Todo mundo já floodou pelo menos uma vez na vida. Acontece. Mas se você faz isso dia sim, dia não, tá na hora de abrir um blog ou pelo menos começar a usar o Woofer.

5) você abusa de hashtags sem-graça

Hashtags são estúpidas. #prontofalei

A utilidade delas é questionável (você não precisa do “#” pra transformar expressões em trending topics – que aliás, também são de utilidade questionável), e na absoluta maioria das vezes, nós só usamos elas pra bancar o engraçadinho, terminando um tweet com uma hashtag “irônica” #agoraosenhorenxergouumaverdade

É até engraçado se usado com moderação. Óbvio que não é o caso. Hoje a #galera coloca hashtags até #em palavras aleatórias no #meio do tweet. Ou então termina todo post com uma tentativa de ser engraçado #vaiacabarempizza #averdadeincomoda #nuncavaisertrendingtopic #musicmonday

Se você também fica meio perdido na política de follow/unfollow do Twitter e não deixa de seguir certas pessoas só pra não causar desconforto, mande esse texto pra elas. Chega de vergonha alheia.

Vamos deixar uma coisa clara: qualquer software feito pra controlar e/ou registrar o que exatamente um funcionário faz com o computador durante o expediente é o equivalente a pendurar na recepção um baita cartaz dizendo “FUCK YOU”.

Não só é indelicado, como também é invasão de privacidade. Dizer que os computadores são propriedade da empresa e portanto, seu chefe tem o direito de monitorar o uso é um argumento bem sem-vergonha, aliás.

Você colocaria uma câmera no toilette da sua casa pra saber quem é que vai mijar no chão da próxima vez que seus amigos bêbados estiverem lá? Você usaria o banheiro da casa de alguém que faz isso? A posse material sobre alguma coisa não lhe dá o direito de violar os direitos alheios.

Chefes e empresas que insistem em monitorar seus funcionários desse jeito Orwelliano são pequenos exemplos da epidemia de estupidez que assola o tal mercado de trabalho. Funcionários deveriam trabalhar com prazos e ser julgados pelos seus resultados, e não coagidos a dedicar 100% de sua atenção para o trabalho como se isso fosse sinônimo de competência ou dedicação.

Aposto que na grande maioria dos casos, isso não é uma questão de aumentar a produtividade do funcionário. É, sim, uma necessidade de subjugar e controlar os outros. Tem gente que não fica contente em poder pagar pra alguém realizar suas tarefas – tem que pisar em cima e mostrar quem é que está no comando.

Coisa de quem fala “tem que ter proatividade, gente” e não sabe nem o que o termo significa. O mundo dos negócios é idiota.

(by the way, escrevi esse post durante o expediente)

Os Donos do Tempo

23/09/2009

Eu odeio meu emprego. Isso tem menos a ver com o emprego em si do que com o meu preconceito com qualquer tipo de emprego que possua uma carga horária fixa.

Quando você tem um emprego desses, deixa de ser o dono do próprio tempo. De segunda à sexta, das 8:30 às 18:30 (ou quase), você tem a obrigação de estar lá. Durante todo o período, você deve satisfação total pra seja lá quem assina seus cheques.

Atrasou? Por que? Demorou pra voltar do almoço? Por que? Demorou tudo isso no banheiro por que? Tá doente? Tem atestado? Não vai poder estar aqui durante a tarde? Por que? O que é que você tem que ir fazer de tão importante? Se você tem alguma coisa pra fazer durante o dia, melhor remarcar pra depois do expediente (quando você está cansado demais) ou pro fim-de-semana (quando você está ocupado demais descansando).

Não é curioso? Parece até que você está vendendo seu tempo, e não seus serviços. É algo como vender o seu tempo com os seus serviços de brinde, só que nesse caso, se eles não gostarem do brinde, podem dispensar o tempo comprado. Veja bem, dispensar, e não devolver. As horas que você gastou aí sentado no escritório estão perdidas pra sempre.

As pessoas passam tempo demais trabalhando. As que moram em metrópoles, de quebra, passam tempo demais no trânsito, indo e voltando do trabalho. Você acorda no começo da manhã, pega trânsito, passa o dia inteiro fazendo um trabalho que você provavelmente odeia pra encher os bolsos de outra pessoa que te dá alguns trocados desse lucro, passa mais algumas horas no trânsito e chega em casa no começo da noite.

Uma semana tem 168 horas. Você passa em média 56 delas dormindo. Das outras 102, 50 são gastas no emprego. Metade da sua vida é tempo demais pra vender.

Trabalho é, em tese, o que nós fazemos para ganhar dinheiro e garantir nossa subsistência, mas chegamos ao ponto em que nossa existência gira em torno dele. Todo o resto é hobby, é lazer, é pra fazer nas folgas, é coisa de vagabundo.

Então nós trabalhamos. Nós, entre os 20 e os 30, estamos aqui, trabalhando pra juntar dinheiro pra comprar uma porrada de coisas e enquanto isso, vamos assumir um bocado de responsabilidades que custam dinheiro pra manter. E daí entre os 30 e os 50 vamos trabalhar pra manter todas essas despesas e não perder a casa, nem o carro, e pra pagar a escola das crianças, e o plano de saúde, e o supermercado, e a viagem do fim-de-ano (que vai ser tão ou mais estressante que o trabalho, by the way).

Nada me irrita mais do que não ser dono do meu próprio tempo. Acho que vou largar o emprego.

Mas eu gosto deles. Agora, mais ainda, já que saiu de moda.

Lembra da internet há uns 6 anos atrás? Não existia Twitter, nem Orkut e se bobear, nem Fotolog. O único jeito de tentar chamar a atenção dos outros era abrir um blog.

O pessoal ia lá e fazia um, altas vezes no Blig (um serviço de blogs muito porco que rolava na época em que alguém ainda se importava com o IG), e postava qualquer merda, tipo:

“Hj eu acordei c/ torssicolo mas ainda deu pra pratikar autofelação, entao to sussa meo! Fui pra aula mas o mala do everson taco umas bolinha de cuspe MTO NOJERA usando caneta que eu fiquei puto. E a prof cecilia ainda mandou EU sair da sala, vai toma no cu porra. Comi um crossan de lanche e vim pa ksa, passei 2h no tel com a rê e dormi um poko agora acordei e parece que jah eh amanha mas num eh dah pa entender??? kkkkkk”

Enfim, agora o pessoal posta as mesmas merdas, mas os canais de “comunicação” (ênfase nas aspas) diluíram a coisa toda. Até os blogs que eu leio tão aos poucos dando mais atenção pro Twitter, o que é uma pena. Eu tou fazendo o contrário.